segunda-feira, 28 de abril de 2008

Certeza...

De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos
sempre recomeçando;
A certeza de que é
preciso continuar;
A certeza de que podemos
ser interrompidos
antes de terminar...

Façamos da interrupção
um novo caminho;
Da queda um passo de dança;
Do medo uma escada;
Do sonho uma ponte;
E da procura...um encontro.
(Fernando Sabino)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Lugares e Coisas

Lugares e Coisas


Sou o templo
dos meus tantos deuses
criados a esmo e à revelia
para amparar os meus tormentos
para estancar minha sangria

***
Sou a vila
das minhas casas
das tantas e tantas moradas
das lembranças que ficaram
e de tantas que sumiram

***
Sou o relógio
do meu tempo
das minhas horas contadas
dos meus dias de labuta e espera
dos meus dias de ócio e preguiça

***
Sou o livro
da minha vida
dos meus encontros e desencontros
das minhas chegadas e partidas
de tantos sonhos negados
mas outros tantos vividos
do meu riso e do meu pranto
das tantas páginas não lidas

***

terça-feira, 1 de abril de 2008

Poesia sem Sabor


Por mais que eu queira,
não sei das verdades à luz do dia.
Tudo o que eu queria era a poesia
que existia em acordar apressada,
pintar os olhos, alimentar os filhos,
estacionar numa vaga qualquer,
e sorver os rostos que não se sabiam observados.
***
Felicidade não rima com poesia.
Poesia só aparece quando sobra tempo,
quando já não se está ocupado sendo feliz.
***
O silêncio tem sempre dois significados,
e a saudade é a mortalha derradeira de um tempo
que não se quer findo.
A saudade tem mania de aguçar a memória,
de pintar os dias idos de cor-de-rosa,
e acinzentar o que não tem mais.
***
Meu tempo não segue as folhas do calendário,
e hoje não me entendo em vinte e quatro horas.
Nada me alegra tempo suficiente para virar lembrança.
Nada me pertence ou me é destinado.
É como se a areia da ampulheta tivesse acabado
e eu não tivesse me dado conta.
***
E daí?
Preciso apenas escrever lembranças
e versos com sabor de gestação.
Preciso das gargalhadas
e dos choros de madrugada,
dos beijos nas manhãs despercebidas,
da sensação de segurança
e proteção de um amor prometido.
***
A mulher feiticeira está distante das fogueiras,
e a poesia foi dormir mais cedo,
numa cama pequena,que não me cabe,
sob um edredom macio com cheiro de novo.
***
Não sei mais nada desde há muito tempo,
quando a areia deixou de escoar os sonhos,
e todos os vidros se partiram em estilhaços de passado.
O tempo passa,
mas não tenho mais vontade de viajar na incerteza,
depois de todas as certezas desfeitas.
***
As paixões deixam gosto amargo e palavras soltas.
Deixam imagens desconexas e sensação de fracasso.
Não existe verso que me devolva a ilusão.
***
Não quero mais verdades e descobertas,
quero a mentira que me embalava os anos
e me definia os horizontes.
***
Onde estão as ilusões?
Os planos e sonhos de madrugadas à luz de velas?
Mas eu sei que o meu trem passou em disparada,
me deixando na estação, sem nome e sem rumo.
***
Não posso voltar e não sei para onde ir.
Então me sento no banco, ao lado de tantos indigentes que,
no fim das contas, amaram.
(Lilian Maial)